As parábolas sobre o Reino

O Reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido num campo que, quando um homem o acha, esconde-o e, cheio de alegria pelo achado, vai e vende tudo o que tem e compra aquele campo. O Reino dos Céus é também semelhante a um negociante que busca pérolas preciosas, e tendo encontrado uma de grande preço, vai, vende tudo o que tem e a compra. “O Reino dos Céus é ainda semelhante a uma rede lançada ao mar, que apanha toda a espécie de peixes. Quando está cheia, os pescadores tiram-na para fora e, sentados na praia, escolhem os bons para cestos e deitam fora os maus. Será assim no fim do mundo: Virão os Anjos e separarão os maus do meio dos justos, e lançá-los-ão na fornalha de fogo. Ali haverá choro e ranger de dentes. Compreendestes tudo isto?”. Eles responderam: “Sim”. Ele disse-lhes: “Por isso todo o escriba instruído nas coisas do Reino dos Céus é semelhante a um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas” (Mt 13, 44-52).

Três parábolas sobre o Reino – a do tesouro escondido, a da pérola e a da rede -, preciosos ensinamentos para a nossa vida espiritual a fim de alcançarmos a eterna salvação. Quando os “pescadores” separarem os “peixes”, no fim do mundo, estaremos nós entre os bons, ou entre os maus?

Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP

I – O Reino revelado pelo Divino Mestre

Tendo sido enviados alguns soldados pelas autoridades religiosas do Templo para prender Jesus, retornaram sem cumprir a missão, alegando ter sido impossível executá-la, pelo simples fato de nunca ninguém ter falado como Ele. Transparece, nesse episódio, o grande poder de expressão da verdade ensinada pela Verdade Encarnada. Ninguém jamais chegou a ser Mestre, ou virá a sê-lo, em toda significação do termo, como o foi Jesus Cristo. Quem, de fato, conseguirá ultrapassar em pedagogia o Pregador Divino?

Consideremos também quanto o homem é moralmente incapaz de conhecer por si só e plenamente as verdades religiosas, necessitando para tal do concurso da Revelação. E também a esse respeito devemos questionar: quem melhor do que o próprio Jesus para oferecer essa Revelação? Ele trazia do alto uma rica variedade de temas para nos instruir, entre os quais se encontrava o do Reino de Deus.

Objetivo dos ensinamentos de Jesus

Seu grande desejo era nos fazer conhecer diretamente as maravilhas que o Pai tinha nos preparado, pois não é fácil exprimi-las em linguagem humana, como o próprio São Paulo diria: “Nem o olho viu, nem o ouvido ouviu, nem entrou no coração do homem, o que Deus preparou para aqueles que O amam” (I Cor 2, 9). Mas se Ele nos mostrasse o Reino dos Céus, ao invés de no-lo revelar, perderíamos os méritos. Por isso, tornava-se indispensável servir-se de imagens aproximativas, muito penetradas de lógica e verossimilhança, e facilmente acessíveis à nossa inteligência. Os recursos de uma oratória empolada não eram necessários ao Mestre, por ser Ele quem era e por comunicar uma doutrina eterna, grandiosa, portanto, na sua própria substância.

Em face do anteriormente dito, e analisando os fatos como se realizaram, torna-se claro para um simples leitor dos Evangelhos o quanto Jesus não teve por objetivo, em Sua vida pública, formar profissionais, artistas ou especialistas em ciência. Ele Se empenhou em constituir as pedras vivas de Sua Igreja para encaminhá-las ao Seu Reino eterno. Compreendemos também melhor algumas das razões que O levaram a Se apresentar, em Sua missão, como perfeito e excelente modelo para todos os que são chamados a ensinar. Pelo Seu modo de agir, advertia os erros, enganos e desvios daqueles que visam fazer-se conhecidos através da docência, ou daqueles que procuram se apropriar da verdade, quando na realidade é ela um bem comum.

Depois de Jesus, os Santos e os Doutores muito nos esclareceram sobre este ponto particular, como o fez Santo Agostinho ao escrever: “Quem reivindica para si próprio aquilo que Vós ofereceis para uso de todos, querendo como particular o que é de todos, é reduzido do que é de todos para o que é seu, isto é, da verdade para a mentira”.1 Sim, debaixo deste prisma, Jesus nos deu o mais alto exemplo de despretensão, tal como nos diz São Paulo: “Sendo de condição divina, não reivindicou o direito de ser igual a Deus, mas aniquilou-Se a Si mesmo, tomando a forma de servo, tornando- Se semelhante aos homens” (Fl 2, 6-7). Por isso, invariavelmente, nós O encontramos reportando-Se ao Pai.

Supremacia do Divino Magistério

Eis alguns elementos que nos levam a melhor entender o porquê de Jesus Se fixar nos céus da História como o Divino Mestre. Assim, afirma o Doutor Angélico: “Cristo é o principal doutor da doutrina espiritual e da fé, conforme a Carta aos Hebreus: ‘Tendo começado a ser anunciada pelo Senhor, foi depois confirmada entre nós pelos que a ouviram, confirmando Deus o seu testemunho por meio de sinais, prodígios’, etc. (Hb 2, 3-4)”.2 E, de fato, com toda segurança pode- se falar numa excelência do Magistério de Cristo, pois “o poder de Cristo ao ensinar se vê, seja pelos milagres com que confirmava a doutrina, seja pela eficácia com que persuadia, seja pela autoridade com que falava, pois o fazia como quem tinha domínio sobre a lei, afirmando:

‘Eu, porém, vos digo’ (Mt 5, 34), seja finalmente pela retidão de seu proceder, vivendo sem pecado”.3 Reforçando ainda mais essa visualização sobre o Sagrado Magistério do Divino Mestre, São Tomás nos mostra como a ciência sagrada supera todas as outras, seja quanto ao seu objeto, pois se ocupa de temas elevados que são inacessíveis à pura razão humana, enquanto as outras só abrangem o que se encontra em seus limites; seja quanto à certeza, pois a ciência sagrada baseia-se na Luz divina que é infalível, e as outras na luz da razão, que é passível de erro. Daí concluir:

“Logo, é evidente que, sob todos os aspectos, a ciência sagrada é mais nobre que as demais”.4 Diante dessa supremacia do Divino Magistério de Jesus, reconsideremos por que razão servia-se Ele de parábolas em Seu ensino.

Método que entrelaça simplicidade e eternidade

As parábolas eram muito comuns no Antigo Testamento. Entre elas podemos mencionar a do canto da vinha de Isaías (cf. 5, 1-7), ou a usada por Natã para invectivar Davi por seus pecados (cf. II Sam 12, 1-4). Tudo leva a crer que, nos tempos da vida pública de Nosso Senhor, elas haviam se tornado ainda mais utilizadas, sobretudo entre os rabinos.

Eram de tipo muito variado, incluindo uma comparação com o intuito de tornar acessível um ensinamento árduo de ser entendido. Enquanto instrumento pedagógico, apesar de sua simplicidade — e talvez até por essa razão -, acabavam por ser atraentes, pois, devido a certa nota de ambigüidade que sempre as acompanhava, resultavam enigmáticas.
Assim, ficavam curiosamente intrigados aqueles que não alcançavam seu inteiro significado, e os que captavam seu conteúdo gozavam de alguma alegria. Daí dirigir-se o Divino Mestre aos Seus ouvintes nestes termos: “Quem tiver ouvidos para ouvir, que ouça” (Mc 4, 9).

Discutem entre si os autores a esse propósito. Alguns, através de um prisma feito de justiça, analisam as parábolas enquanto sendo um procedimento utilizado pelo Messias com o objetivo de castigar os que se negavam a acreditar na Revelação, apesar de Seus milagres. Entre eles sobressai Maldonado, bem como Knabenbauer e Fonk. Outros, pelo contrário, a partir da misericórdia explicam que o suave véu das parábolas visava estimular o interesse dos circunstantes, levandoos a fazer perguntas, e por isso afirma São Jerônimo:

“Mistura o claro com o obscuro para que, por meio do compreensível, alcancem o que não entendem”.5 Também era indispensável que Jesus formasse Seus discípulos passo a passo – e não de maneira brusca – dentro dos novos horizontes. E sob este ponto de vista, o método por Ele adotado não poderia ser melhor.

De si, a parábola deveria ser simples, desprovida de qualquer caráter rebuscado e, ao tratar de matéria ligada à eternidade, tornava-se sempre atual. Simplicidade e eternidade eram termos que se entrelaçavam no cerne da Revelação trazida por Jesus a respeito do Reino.

Duas visões opostas do Reino

Os judeus tinham uma concepção equivocada sobre este ponto em particular.

Julgavam ser a vinda do Messias uma oportunidade única para a realização do sonho nacionalista do povo eleito: uma intervenção divina para instaurar uma era histórica na qual a supremacia política, social e financeira sobre todos os povos seria atingida com glória e triunfo.

Bem no sentido oposto estava o conteúdo da Revelação sobre o verdadeiro Reino. Neste, tudo é despretensão, lentidão e enfrentamento de obstáculos. Daí sua aproximação com as figuras do grão de mostarda, do joio e do trigo, parábolas contrapostas aos erros de visualização do povo judeu.

Jesus prega à multidão

Essa é a temática tratada ao longo de todo o capítulo 13, de São Mateus.

Neste, acompanhamos a pregação de Jesus na Galiléia. Ao sair de casa, Jesus se senta à margem do mar de Tiberíades. Envolve-O tal multidão que se vê Ele na contingência de subir a uma das barcas, para dali falar a todos. Discorre novamente em parábolas: o semeador, a cizânia, o grão de mostarda, o fermento. Depois disto, despede os ouvintes e retorna para casa. Uma vez a sós com os discípulos, Lhe é feito o pedido de explicações sobre a metáfora da cizânia.
Se continuarmos a ouvi-Lo, penetraremos no trecho do Evangelho da Liturgia de hoje.

Se bem que São Mateus apresente esses ensinamentos como tendo sido proferidos em casa, somente aos discípulos, e não à multidão, Maldonado opina em sentido contrário: “Eu creio ser mais provável que os tenha dito a todos antes, junto com as outras parábolas”.6

II – A parábola do tesouro escondido

 “O Reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido num campo que, quando um homem o acha, esconde-o e, cheio de alegria pelo achado, vai e vende tudo o que tem e compra aquele campo.”

Os detalhes secundários são omitidos pelo Evangelista. Terão, ou não, sido tratados pelo Divino Mestre? Não temos como o saber. Porém, pode-se imaginar o quanto a exposição de Jesus deve ter sido atraentíssima, pelo fato dEle discorrer sobre os temas através de Sua humanidade e, pari passu, ir iluminando, bem dispondo e auxiliando, pela graça e por Seu poder divino, o fundo da alma de cada um ali presente.

Mateus tem um objetivo concreto em mente. Por isso sintetiza a parábola nos seus elementos essenciais, deixando de lado, por exemplo, a indicação de como foi descoberto o tal tesouro. Conhecemos nós episódios havidos na História, a propósito de descobertas deslumbrantes nessa linha.

Por isso, fica ao encargo de nossa imaginação ambientá-la, completando os pormenores. O homem esconde novamente o tesouro. De uma perspectiva moral, procede bem, não se apropriando das riquezas encontradas. E, ao mesmo tempo, mostra-se prudente não deixando à vista aquelas preciosidades, para evitar as tentações que alguém pudesse ter ao deparar-se com elas.

“Não é necessário adequar este dado [o fato de esconder o tesouro] ao significado da parábola, porque, segundo minha teoria, não é parte dela, senão ornato”.7

Maldonado discorre sobre este ponto em particular com muito e sábio critério, glosando considerações feitas por São Jerônimo e São Beda.

Parece-nos curioso que os autores concentrem seus comentários sobre o homem que encontra o tesouro, mas sejam displicentes em considerar o terreno onde estava ele escondido.

Seja-nos permitido fazer uma aplicação a esse propósito

Olhando para os primeiros tempos da Igreja, vemos quanto custou aos judeus e pagãos convertidos “comprar o terreno” no qual se escondia o tesouro da Salvação. A renúncia exigida era total: família, bens, reputação e até a própria vida. Quão bem procederam, entretanto, os que então abraçaram a Fé Católica! A humanidade atual, qual dos dois papéis representa: o do homem que deseja comprar, ou o do que quer vender? Infelizmente, a quase totalidade dos fatos nos inclina à segunda hipótese. Muitos de nós, hoje em dia, caímos na insensatez de não mais nos importarmos com esse tesouro de nossa Fé, que tanto custou aos nossos antepassados, e pelo qual o Salvador derramou todo o Seu Preciosíssimo Sangue no Calvário. Por quão miserável preço vendemos, alguns de nós, esse tão elevado tesouro, tal como fez Esaú com sua primogenitura, ao trocá-la por um mísero prato de lentilhas! Hoje, mais do que nunca, multiplicam- se as “lentilhas” da sensualidade, da corrupção, do prazer ilícito, da ambição, etc.

Aqui também poderia estar incluída a figura do religioso que se deixa arrastar pelos afazeres concretos e vai se olvidando do “tesouro” pelo qual tudo abandonou em seu primitivo fervor.

Essa plenitude de alegria do homem da parábola deve nos acompanhar a vida inteira, sem interrupção, por ser um dos efeitos da verdadeira Fé. A virtude é um dom gratuito; não se compra. Entretanto, sua posse contínua e crescente custa esforços de ascese, piedade e fervor. É preciso “vendermos” todas as nossas paixões, caprichos, manias, vícios, sentimentalismos, etc., em síntese, toda a nossa maldade. É o melhor “negócio” que se possa fazer nesta Terra.

III – A parábola da pérola preciosa

 “O Reino dos Céus é também semelhante a um negociante que busca pérolas preciosas, e tendo encontrado uma de grande preço, vai, vende tudo o que tem e a compra.”

“O Reino dos Céus é semelhante não ao mercador, mas sim à pérola; como na presente parábola ele não é semelhante ao homem que acha o tesouro, mas ao próprio tesouro em questão”.8 Na Antigüidade, as pérolas eram consideradas de um valor inestimável. Por essa razão, quem encontrasse à venda alguma de excelente categoria estaria disposto a desfazer-se de todos os seus bens para comprá-la.9 O texto nos fala de “um negociante que busca pérolas preciosas”. Ele, ao adquirir uma de altíssima qualidade, não pensa em vendê- la – pelo menos nada consta a esse respeito na letra do Evangelho.

Sobre detalhes secundários, debatem entre si diversos autores. O importante é reter a idéia de que a presente parábola “tem o mesmo significado que a precedente, variando apenas na matéria” 10, ou seja, trata-se de, se necessário for, deixar tudo o que se possui com vistas a adquirir esse “tesouro”, ou “pérola”, que nada mais é do que o próprio Reino dos Céus.

A esse respeito pondera São João Crisóstomo: “A pregação do Evangelho é não só uma fonte de múltiplas riquezas, como o é um tesouro, mas é também preciosa como uma pérola”.

E mais adiante, completando seu pensamento, afirma: “A verdade é una, não pode ser dividida em várias partes; por isso se fala numa só pérola encontrada. E assim como quem possui uma pérola de grande preço conhece bem sua riqueza – enquanto todos os outros a ignoram, porque essa pérola é tão pequena que cabe numa mão – da mesma forma, na pregação do Evangelho, aqueles que têm a felicidade de recebê-la sabem quais riquezas espirituais adquiriram, riquezas completamente ignoradas daqueles que não conhecem o valor desse tesouro”.11 De fato, quantos pensadores pagãos acabaram por aderir à verdade do Cristianismo, naqueles primeiros tempos, ao se sentirem atraídos por sua doutrina, chegando alguns deles a entregar sua vida por amor a ela? Eram “bons negociantes de pérolas”.

Pelo contrário, numerosos chegam a ser hoje os que abandonam a “pérola” da verdade e preferem rolar no precipício do erro, do equívoco e da confusão. Lançam-se, sem receio, nas águas turvas da indiferença e da tibieza a propósito de sua salvação eterna, do Reino e do próprio Deus. Para esses, o senso do ser vai se tornando cada vez mais embotado, a ponto de quase não mais distinguirem entre bem e mal, belo e feio, verdade e erro.

E quantos há que, conhecendo a verdade, a ela não se entregam, por pura falta de generosidade? Não “vendem tudo o que possuem…” E quais são os que, no mundo atual, estão dispostos a tudo sacrificar para manter o estado de Graça? Enfim, essas duas parábolas completam- se harmoniosamente. Uma se refere ao pulchrum do Reino (a da pérola); a outra busca inculcarnos a idéia da vantagem, utilidade e prêmio (a do tesouro). Nesta última se reflete a gratuidade do Reino (“encontra”); na anterior, o esforço (“procura”). Em ambas torna-se patente quanto deve desapegar-se dos bens deste mundo todo aquele que deseja adquirir o Reino dos Céus.

IV – A parábola da rede

 “O Reino dos Céus é ainda semelhante a uma rede lançada ao mar, que apanha toda a espécie de peixes. Quando está cheia, os pescadores tiram-na para fora e, sentados na praia, escolhem os bons para cestos e deitam fora os maus. Será assim no fim do mundo: Virão os Anjos e separarão os maus do meio dos justos, e lançá-los-ão na fornalha de fogo. Ali haverá choro e ranger de dentes.”

Continuamos ouvindo Jesus falar nas cercanias do mar de Tiberíades, em cujas águas, segundo informações de entendidos, há aproximadamente trinta espécies diferentes de peixes. Descreve bem a realidade histórico-geográfica dessa parábola o Pe. Manuel de Tuya, OP, ao analisar segundo a legislação levítica os peixes que eram considerados impuros – devido à ausência de escamas, etc. – e outros classificados como maus por serem defeituosos.

Daí que, ao chegar à praia a rede, após ter sido puxada pelos pescadores, os bons fossem postos em canastras e os maus recusados.12 Essa cena, tão comum na vida diária de Seus discípulos, é recordada pelo Divino Mestre com o intuito de lhes deixar claro que, para penetrar no Reino dos Céus, é indispensável ser bom cidadão neste mesmo Reino, que aqui começa com a vida sobrenatural.

Só assim não seremos excluídos no nosso Juízo particular e, portanto, também no Final. “Ou dito de outra forma: compara-se a Santa Igreja a uma rede, porque foi entregue a alguns pescadores, e todos por meio dela são arrastados das ondas da vida presente ao Reino Eterno, a fim de que não pereçam submergidos no abismo da morte eterna.

“Esta Igreja reúne todo tipo de peixes, porque chama para perdoar a todos os homens: aos sábios e aos insensatos, aos livres e aos escravos, aos ricos e aos pobres, aos fortes e aos fracos.

Estará completamente cheia a rede, isto é, a Igreja, quando no fim dos tempos haja terminado o destino do gênero humano. Por isso, continua: ‘a qual, quando está cheia’, etc., porque assim como o mar representa o mundo, assim também a margem do mar figura o término do mundo; e neste término são escolhidos e guardados em canastros os bons, e os maus são lançados fora, ou seja, os eleitos são recebidos nos Tabernáculos Eternos, e os maus, depois de terem perdido a luz que iluminava o interior do Reino, serão levados às trevas exteriores: porque agora a rede da Fé contém igualmente, como peixes mesclados, todos os maus e bons; mas logo na margem se verá os que estão dentro da rede da Igreja”.13 Não só segundo São Gregório esta “rede” pode ser interpretada como uma imagem da Igreja; muitos outros autores opinam no mesmo sentido.

A Igreja se compõe de justos, mas também de pecadores. O mal que às vezes encontramos na sua parte humana não deve nos assustar, nem mesmo escandalizar; já está previsto. Nem por isso deixa a Igreja de ser Santa em sua essência, pois é Ela divina. O que nos deve importar é buscar essa “pérola” e, encontrando esse “tesouro”, abandonar todo apego para sermos bons “peixes” nessa rede.

A tarefa da separação caberá aos Anjos, no dia do Juízo: os bons à direita, os maus à esquerda; os sacerdotes santos serão apartados dos sacerdotes sacrílegos; os religiosos observantes, dos sensuais; os magistrados íntegros, dos injustos; serão recebidas as virgens prudentes, rejeitadas as néscias; as esposas fiéis, afastadas das adúlteras; em síntese, os eleitos serão postos de um lado, e os réprobos de outro.

Caberia aqui uma exaustiva descrição a respeito dos tormentos eternos dos maus no inferno, como também e em contraposição a estes, dos gozos celestiais que terão os bons na vida eterna. Não faltará ocasião para se discorrer sobre tão importante matéria.

V – Epílogo

Jesus ensinava aos Seus discípulos a substância e as belezas do Reino dos Céus, constituindo-os doutores.

E assim, altamente formados, deviam eles ensinar aos outros com abundância e variedade de doutrina, segundo o nível e necessidade de seus ouvintes, sem jamais serem surpreendidos “de mãos vazias”.

“Porque da mesma maneira que o pai de família deve alimentar os seus com o mantimento corporal, assim o doutor evangélico deve sustentar o povo cristão com o sustento espiritual”.14 Para nós também constitui uma necessidade, quando temos outros sob nossa responsabilidade, empregarmos todos os meios da melhor erudição – antiga e atual – e da mais atraente didática, a fim de bem instruí-los e formá-los.

Jesus contemplava, nessa ocasião, o futuro de Sua obra, já não mais somente com os conhecimentos eternos de Sua divindade, nem apenas com os da visão beatífica de Sua alma na glória, mas através de Sua experiência humana, e discernia os esplendores do desenlace final de todos os acontecimentos, depois de Seus dramas e sofrimentos durante a Paixão. Exultava de alegria por ver com antecipação o triunfo de Seus discípulos, da Igreja, e dos bons em geral após o Juízo, assim como a justiça do Pai desabando sobre aqueles que rejeitariam Sua Revelação.

Por isso, descortinava diante do público – como também de Seus discípulos – panoramas do porvir, ora com tintas sombrias e carregadas de gravidade, ora com fulgores deslumbrantes e maravilhosos. Seus ouvintes, às vezes, enchiam-se de temor e de terror, e, em outros momentos, de consolação e esperança.

Pois o pavor é um excelente freio face ao convite do mal, e a esperança é um dos melhores estímulos para nos conduzir a Deus. Fixemos nosso entendimento e nosso coração nas maravilhas do Reino dos Céus, e conservemos um perseverante terror da eternidade no Inferno. Assim, estaremos em condições para nos localizar entre aqueles convidados que se encontrarão à direita de Jesus, no Juízo Final! (Revista Arautos do Evangelho, Jul/2008, n. 79, p. 12 a 19)

Fonte: http://www.arautos.org/secoes/artigos/doutrina/comentarios-ao-evangelho/as-parabolas-sobre-o-reino-141054