JULGAR A VIOLÊNCIA PELO OLHAR BÍBLICO

  • ANTIGO TESTAMENTO

O primeiro ato de violência apresentado na Bíblia é o rompimento da relação do homem com Deus no paraíso. Este rompimento conduz à convivência violenta manifestada no assassinato de Abel pelo irmão Caim (Gn 4,1-16). A partir deste homicídio, a violência de espalha. Tudo o que foi criado por Deus, que considerou bom, ficou maculado pelo pecado e pela violência do ser humano. Lembremos que Caim ao ser perguntado por seu irmão, respondeu a Deus: “Acaso sou o guarda do meu irmão?” (Gn 4,9). Portanto, podemos concluir que a violência somente poderá ser superada pela reconciliação do homem com Deus e consequente inversão da frase de Caim, entendendo-nos todos como responsáveis uns pelos outros.

Vários textos bíblicos irão proibir o assassinato (Ex 20,13; Dt 5,17) bem como a cobiça da mulher e dos bens alheios (Ex 20,14.17; Dt 5,18.21). Para superar a violência, o ser humano deverá estar sempre com a verdade (Ex 20,16; Dt 5,20). A Lei de talião (olho por olho, dente por dente – Ex 21,24; Lv 24,20) estabeleceu uma justiça proporcional ao mal praticado, sem que houvesse uma vingança exagerada.

Outros textos da Sagrada Escritura motivam à acolhida ao estrangeiro (Ex 23,9), assim como a superar o ódio contra o irmão (Lv 19,17). O que Jesus falou, já havia sido dito tempos antes: “Amarás a teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19,18).

Os profetas é que irão refletir com mais propriedade a violência estabelecendo suas causas e eventuais remédios para combatê-la.  Ao enfrentar a violência muitos profetas a sofreram, como foi o caso de Jeremias mantido numa cisterna como prisioneiro (Jr 37-38). Elias teve que fugir para o deserto para escapar (1Rs 19,2). Amós foi expulso do santuário de Betel (Am 7.10-17). Para a superação da violência os profetas convidam seus contemporâneos para a prática da justiça e da compaixão (Am 5,24; Jr 22,3). Isaías apresenta a receita do remédio para a violência de forma explícita: “Lavai-vos, limpai-vos, tirai da minha vista as injustiças que praticais. Parai de fazer o mal, aprendei a fazer o bem, buscai o que é correto, defendei o direito do oprimido, fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva” (Is 1,16-17). Mais adiante Isaías diz que o fruto da justiça será a paz, que trará tranquilidade e segurança duradouras (Is 32,16-18).

Os livros Sapienciais apresentam de forma mais madura a superação da violência:

“Não trames o mal contra o amigo, quando ele vive contigo cheio de confiança. Não abras processo contra alguém sem motivo, se não te fez mal algum. Não invejes a pessoa injusta e não imites nenhuma de suas atitudes, pois o Senhor detesta o perverso” (Pr 3,29-32). Veja também Pr 4,14; 12,20; 13,2; 25,21).

Quase um terço dos 150 Salmos da Bíblia trata sobre a violência individual e testemunham a dor e a devastação causada pelos violentos (Veja como exemplo os Sl 7,2-3; Sl 10,7-8; Sl 27,12).

  • NOVO TESTAMENTO

À luz da palavra definitiva de Deus que nos é dada por Jesus é que toda a delicada temática da violência e da vingança na Bíblia recebe uma palavra definitiva. Jesus diz:

“Ouvistes o que foi dito: amarás a teu próximo e odiarás a teu inimigo. Eu vos digo: Amai os vossos inimigos e orais pelos que vos perseguem. Assim vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus; pois ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e cair a chuva sobre injustos e justos. Se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Os publicanos não fazem a mesma coisa? E se saudais somente os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Os pagãos não fazem a mesma coisa? Sede, portanto, perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5,43-48).

A perfeição solicitada em Mateus é dita no Evangelho de Lucas como misericórdia (Lc 6,35). Jesus propõe algo maior que a mera vingança. Diz o Filho de Deus:

“Ouvistes o que foi dito: olho por olho, dente por dente. Eu, porém, vos digo: não ofereçais resistência ao malvado. Pelo contrário, se alguém te bater na face direita. Oferece-lhe também a esquerda” (Mt 5,38-42).

Nas bem-aventuranças, Jesus declara que aqueles que promovem a paz serão chamados filhos de Deus (Mt 5,9). A promoção da paz se torna ministério de todo cristão, uma paz deixada por Jesus:

“Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou. Não é à maneira do mundo que eu a dou” (Jo 14,27).

Nas palavras de Jesus podemos encontrar a fonte da qual nasce a violência:

“Nada que, de fora, entra na pessoa pode torná-la impura. O que sai da pessoa é que a torna impura. Pois é de dentro do coração humano que saem as más intenções: imoralidade sexual, roubo, homicídios, adultérios, ambições desmedidas, perversidades, fraude, devassidão, inveja, calúnia, orgulho, insensatez. Todas estas coisas saem de dentro e são elas que tornam alguém impuro” (Mt 7,14-15.21-23).

É, pois, o coração do homem que precisa ser pacificado para que possa superar a ideia que o outro é um risco a ser eliminado. A superação da violência passa necessariamente pela conversão dos atos do homem que pressupõe uma conversão do seu coração. A espiritualidade é apontada como um instrumento necessário para este processo:

“Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem” (Mt 5,44).

“…brilhe a vossa luz diante das pessoas, para que vejam as vossas boas obras e louvem o vosso Pai que está nos céus” (Mt 5,16).

Em todos estes casos a oração e a confiança em Deus são as únicas armas utilizadas pelos não violentos.

O FILHO VENCE A VIOLÊNCIA PELO AMOROSO DOM DE SI

Para os cristãos, a superação da violência se baseia em sua profissão de fé, que começa afirmando:

“Creio em Deus, Pai todo poderoso, criador do céu e da terra”.

A confissão de fé em um Pai comum é a semente da fraternal convivência entre os seres humanos. Malaquias já anunciava esta comum paternidade dizendo:

“Acaso não temos nós o mesmo Pai? Não foi o mesmo Deus quem nos criou? Por que, então, nos enganamos uns aos outros?” (Ml 2,10.16b)

A violência testemunhada desde o fratricídio de Abel por Caim é assumida por Jesus em seu corpo. Ele transforma a violência sofrida em amor ofertado. Diz São Pedro:

“Quando injuriado, não retribuía as injurias; atormentado, não ameaçava. Carregou nossos pecados em seu próprio corpo, sobre a cruz, a fim de que, mortos para os pecados, vivamos para a justiça” (1 Pd 2,23-24).

A IGREJA CONVIDA A PROMOVER A CULTURA DO DIÁLOGO

O Concílio Vaticano II diz:

“Para edificar a paz é preciso eliminar as causas das discórdias entre os homens, que são as que alimentam as guerras e, sobretudo, as injustiças. Muitas delas provêm das excessivas desigualdades econômicas e do atraso em lhes dar os remédios necessários. Outras nascem do espírito de dominação e do desprezo pelas pessoas” (GS n. 83).

Preocupado com a violência crescente, o então Papa Paulo VI, agora beatificado, criou em 1968 a comemoração do dia mundial pela paz, celebrado sempre no primeiro dia do ano. Na mensagem para o primeiro dia mundial da paz o Beato Paulo VI falou da necessidade de um espírito novo, um novo modo de pensar o homem e seus deveres e o seu destino, o qual por sua vez, se constrói com uma nova pedagogia: a educação das novas gerações para o respeito mútuo, para a fraternidade e para a colaboração entre as pessoas, em vista do progresso e do desenvolvimento. Nesta ocasião, em vista disso, indica um conjunto de valores: a sinceridade, a justiça, o amor, a liberdade das pessoas e dos povos, o reconhecimento dos direitos da pessoa humana e da independência das nações. E proclama com convicção:

“… do Evangelho pode brotar a paz, não para tornar os homens fracos e moles, mas para substituir nas suas almas os impulsos da violência e da prepotência pelas virtudes viris da razão e do coração dum humanismo verdadeiro!”

Na celebração do dia mundial da paz de 2017 o Papa Francisco disse:

“Todos nós desejamos a paz; muitas pessoas a constroem todos os dias com pequenos gestos; muitos sofrem e suportam pacientemente a dificuldade de tantas tentativas para construí-la”.

A campanha da fraternidade deste ano nos convoca a viver a prática de Jesus no exercício dos pequenos gestos que o Papa Francisco destaca na ação do Filho de Deus:> a escuta, a saída missionária, o acolhimento, o diálogo, o anúncio da paz e a denúncia da violência na dimensão pessoal e social. A lógica do amor é o único instrumento eficaz diante das ações violentas

Na busca da superação da violência como seguimento de Jesus Cristo vale lembrar que em 2007 foi beatificado como mártir o leigo austríaco Franz Jagerstatter, casado e pai de família. Ele rejeitou prestar qualquer tipo de colaboração e de apoio aos nazistas, Foi por isso condenado à morte e decapitado em 09/08/1943. Sua beatificação repropõe o convite a resistir a toda forma de violência e a consagrar todos os esforços possíveis pela causa da paz.

Campanha da Fraternidade 2020: "Viu, sentiu compaixão cuidou dele"